quinta-feira, 28 de março de 2013

Transport-école

O trabalho apresentado por Flávio Rodrigues com técnica de colagem e com aplicação do papel vegetal, sugere diversas formas através da transparência.

"Transport-école" - Desenho instalação com técnica de colagem (2003-2006)

Esta instalação tem uma disposição de peças Autorama (*) e de materiais diversos, ocupam uma dimensão na parede de 200x350cm        (nova montagem em 2012)

A instalação "Transport-école" convoca os nossos sentidos, não se limita à observação, pode estabelecer uma relação do nosso corpo com o espaço envolvente.Cada sujeito é levado a interpretar de acordo com as suas vivências, sendo "transportado" para onde a sua imaginação o levar, através deste objecto. Torna-se assim num objecto "transporte".

A relação que se estabelece com o espaço e a memória pode transportar o sujeito para experiências vividas. De acordo com Marilice Corona, o autor evoca uma relação entre a infância e o objecto de significação que tanto se pode transformar em linhas rectas e curvas, como em rectângulos. A lista de relações que se podem estabelecer neste jogo podem ser múltiplas dependendo do olhar do sujeito.

O artista coloca algumas peças de brincadeiras, as peças de pistas de carrinhos que permitem estabelecer elos com a infância e com o ludismo. O período em que a criança brinca com diversos objectos que estão espalhados à sua volta pelo chão. São oportunidades que permitem à criança conhecer os objectos através  do tacto, do olfacto, do olhar, do som e do sabor.

Do ponto de vista da educação artística, os sentidos permitem aproximar a criança do objecto de arte, de o conhecer para o melhor compreender. Considero que esta obra permite várias abordagens no campo da educação artística, seria interessante explorar com o público infantil este objecto, do ponto de vista das suas características (macio/rijo, claro/escuro, nítido/baço, etc). A curiosidade da criança e por ser espontânea  leva-nos a percorrer percursos que talvez não ousássemos.

Esta aproximação da infância à obra de Flávio Rodrigues apela também à postura do corpo face ao mundo que o rodeia. Não é a toa que o limite quadrado do suporte é rompido pelas pistas de carros espalhadas pela parede. Esta intenção do artista que leva o espectador a seguir um percurso. Os objectos deixam de estar no chão (ponto de partida) onde costumam estar as pistas, os tubos de canalização e sobem para a parede. Saem do chão, tal como a criança quando deixa de gatinhar e se consegue erguer para pôr de pé. A visão que temos do chão à medida que crescemos passa a ter um aspecto topológico, tal como nos sugere a obra que observamos de longe na parede.

Outra intenção do artista é deslocarmos o olhar  pela parede até a nossa "visão se tornar mais baça pela imposição do papel vegetal". A percepção muda quando olhamos através do papel vegetal, podemos imaginar por exemplo a planta dum quadro de luz, mas isso depende da significação que cada um dá à obra.
"Feito neblina o suposto suporte pula para a frente e a pista muda de tom. A sobreposição de transparências reais impossibilita a nitidez da imagem, criando espessuras e um vago mistério." (Corona, 2013: 243)


(*) Autorama são peças de brinquedo para crianças, conhecidas em Portugal como pistas de carros (reciclagem de materiais).

Em "Estúdio 7":
"É do território da infância que Flávio Gonçalves retira a energia propulsora do seu trabalho e cria suas estratégias para falar sobre desenho. O estudo de seus documentos revela como se dá o início de um jogo cuja meta é discutir os mistérios do desenho de criação no qual, todos nós, nos vemos envolvidos (Corona, 2013:245).



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